Megalomaníaca
Psicanálise e o monstro da palavra
A palavra cria o monstro.
Um monstro bonito, agradável, às vezes arrebatador, de tirar o sono. Na vastidão da minha mente tudo é controlável, tudo é contido com um extintor de incêndio. As palavras permeiam a maior parte do meu consciente e meu insconciente, eu as vivo e respiro, eu escrevo já pensando em escrever no amanhã. Escrever é terrivelmente fácil. Falar, por outro lado, é a habilidade mais difícil que o ser humano já desenvolveu.

Falar exige memória. Memória traz sentimento, consequentemente. Digo isto porque a nova abordagem da terapia me atingiu em cheio no meio do peito, árvore caída no meio da mata de mim. Toda mudança para mim é assustadora, mas tenho encarado tantas reviravoltas desde a última vez que pisei por entre textos aqui que o pensamento de mais uma não me assustou tanto. As questões deixadas na minha cabeça pós-sessão têm seu fundo de verdade. Talvez eu tenha acreditado. Talvez o medo do falar sempre foi esse: de que o que só viveu na minha cabeça agora habita o mundo real num momento do espaço-tempo em que falei sobre isso, quase como uma entidade com corpo e impressão digital no sofá que deixei para trás.
Mas muito do meu problema é que eu sou meio megalomaníaca, se é que é possível ser parcialmente assim. Tenho delírios de grandeza, a mera recíproca me é suficiente para imaginar que as pessoas finalmente seguiriam o roteiro que escrevi — é nele onde correm dramaticamente atrás de mim no aeroporto, onde me conecto de imediato com as pessoas e não me sinto drenada por elas, é onde eu não preciso ser a pessoa que sempre toma as decisões. Se eu estivesse em terapia, diria que caio em contradição pelo fato de ser uma enorme controladora. E receberia um olhar condescendente aqui e acolá.
Certo dia eu disse que minha linguagem do amor era todas as linguagens; quem se apega a uma ou duas está se limitando. Ou fazendo a coisa certa, visto que ser desta maneira não tem protegido meu coração dos despautérios do que meus olhos veem. Especialmente quando me veem falando do que ainda não deveria ser falado, do que arrasa meu peito como dente afiado de onça; uma vez que trava a mandíbula bem no meio do meu coração é impossível saber o que é sangue e o que é memória. Porque amar é lembrar na felicidade, na tristeza, na miséria, no luto, no tédio, no caos. O amor é o nome que lembro enquanto atravesso o submundo sem poder olhar para trás.
Apesar de tudo, quero continuar a falar. Pouco a pouco, os assuntos intocáveis ficam cada vez menos assustadores e eu fico cada vez mais megalomaníaca. É uma troca justa, eu diria. Mas é maio, e há um sentimento no ar de que tudo pode acontecer. Minha vida pode mudar de um dia para o outro. O que está aqui, amanhã não está. Talvez nem eu também.


