Coloque primeiro a máscara em você
Autocuidado é importante, mas não pelas razões que você imagina
Dizem que brasileiros já nascem sabendo marketing, mas eu não me considero muito boa nisso.
Entretanto, a partir de agora, meus textos descaradamente farão alusão a partes do meu livro, Daqui Até o Sol, uma vez por mês. É meu modo de começar a falar mais sobre a obra a qual passei tanto tempo lapidando, e no momento em processo de publicação.
Na primeira parte da obra, em determinada momento, ocorre o seguinte diálogo:
“Sofrer em silêncio não te faz uma boa pessoa. É preciso ter coragem para saber pedir ajuda e para saber recebê-la também.”
“Eu pedi por ajuda. Pedi que ajudasse o Zumbi, não lembra?”
“Você não pode ajudar ninguém se não estiver bem em primeiro lugar.”
“Aquele lance de colocar a máscara primeiro em você e depois na pessoa ao seu lado?”
“Não faço ideia do que está falando.”
Ravi riu e sua risada reverberou contra minha pele. Minha boca se alongou num sorriso antes que eu pudesse controlá-la.
Esse diálogo é do ponto de vista do Garo, meu protagonista alienígena agênero que, obviamente, nunca andou de avião. Mas a questão não é essa.
Em face de um perigo real, quantos de nós escolheria a si ao invés de alguém que nós amamos? Um sacrifício nobre, decerto. Mas sacrifícios são superestimados. Quem paga o preço real por eles nunca é quem se vai, mas sim quem fica para lidar com as consequências.
Alguns anos atrás eu achava que me despedir desse mundo era a melhor coisa que eu podia fazer pelas pessoas que eu amava. ‘Fardo’, eu me considerava. Viver, em suma, era agonizante e insípido e quando se não tem propósito para continuar vivendo, a existência se torna, no mínimo, entendiante. Mas propósito também é superestimado, e eu quero falar de algo que realmente importa: autopreservação.
Sem dar muito spoiler, Ravi menciona que pediu por ajuda para o cachorro dele, Zumbi, em um momento de dificuldade, mas esqueceu que ele precisava de ajuda também. A mais clichê das metáforas também é a mais verdadeira: é preciso cuidar de si antes de cuidar do outro, se lapidar o suficiente até virar diamante mesmo que o outro seja somente, por enquanto, um mísero carbono. Ambos têm a mesma origem, apenas caminhos diferentes a seguir — na bifurcação à sua frente, apesar de menos atraente, a escolha deve ser o autoabraço.
Então coloque a máscara em você primeiro e então, depois, ajude seu amigo que já está quase sem ar; verifique se sua máscara está bem firme e pergunte como está a dos seus familiares e dos seus amigos. Foi Audre Lorde que disse, “Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é uma autopreservação e é um ato de guerra política.” Lorde teve câncer e registrou sua luta de autopreservação e cuidado próprio como sua maior forma de resistência ao sistema que tenta e sempre tentou calar mulheres como ela. Independente de quem você seja, a luta por uma nova realidade além desse sistema que nos oprime começa com pequenos atos de gentileza com a pessoa que mais precisa de carinho: você.
Autossacrifício é a saída dos que decidem que nem todas as vidas decentes valem a pena, e nenhuma declaração jamais foi tão errônea. Continuar a viver mesmo “sem propósito” é o maior ato de bravura que alguém pode arriscar; somos seres produtores, com cérebros configurados para buscar o inalcançável num mundo idílico onde temos tudo e não perdemos nada.
Mas é preciso saber perder também. Perder o medo do desconhecido, como meu personagem Garo perdeu ao longo da jornada dele na Terra, perder o medo de desagradar os outros, como o Ravi, meu segundo protagonista, aprendeu ao longo do livro. Ambos são filhos de mundos iminentemente em crise, tão reflexo do nosso presente quanto do nosso futuro. E juntos são um ode à esperança. Esse é um livro sobre esperança. É preciso ser tudo e nada ao mesmo tempo para viver: sentir tristeza, raiva, felicidade, talvez todas num dia; é preciso ser vulnerável e abrir o meio do peito para mostrar do que é feito o teu coração. Espero que, se algum dia você chegar a ler essa história, ela te traga algum conforto sobre o futuro da humanidade. É preciso nos imaginar vitoriosos, não é? Eu já tenho o amor guardado no peito. Quem sabe não o dividimos por essa história, por esse país, pelos anos vindouros do caleidoscópio do amanhã.




Obrigade por isso